Sexta Set 10

O que vem pela frente?

Fernando Soares de Oliveira - Junho 09

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Trabalhar na indústria de telecomunicações significa estar diariamente face-a-face com novidades. Elas vêm de todos os lados e, cada vez mais, de onde menos se espera. Historicamente a indústria de telecomunicações sempre teve esse comportamento. Por exemplo, imagine o ano de 1876. Corre a notícia que Graham Bell inventou um jeito de transmitir a voz humana por intermédio de um fio. Se você estivesse lá, sem qualquer base para fazer sua análise, qual seria sua opinião a respeito? Com alguma chance, você faria parte da multidão de pessoas que não deram muito crédito ao invento. Como sabemos hoje, passados vários anos, a telefonia fixa estabelece-se e os monopólios tomam conta do mercado. Ninguém mais vive sem telefone.

Cem anos depois da inovação de Graham Bell, pelos idos de 1978 comenta-se que está sendo testada nos EUA uma rede de telefonia móvel, sem fio. Qual seria o potencial desse novo negócio? E a projeção de crescimento? Como ela poderia ser usada? A telefonia móvel não é nada antiga, e no Brasil existe há aproximadamente 15 anos. Que analista ou consultor poderia prever o seu crescimento naquela época? Pessoalmente, nunca vi um  relatório que tenha acertado o alvo, nem sequer chegado perto dos números reais de negócios no Brasil. Todas as projeções mostraram-se tímidas demais enquanto os números reais foram sempre muito maiores. Talvez porque nos primeiros anos tínhamos produtos, serviços e custos, ou melhor, todo um mercado ainda imaturo. Mas não é sempre assim? Não foram todas as disrupções historicamente caracterizadas por soluções revolucionárias, porém simples, e de qualiade inferior a produtos anteriores e similares? Porém o que era simples e de qualidade mediana, evoluiu. E rápido. E muito!

Olhando os últimos 15 anos, há uma mudança muito interessante na curva de inovação dos telefones celulares. As inovações caminharam mais lentamente nos primeiros 10 anos. Poucos avanços marcantes, e as novidades ficaram restritas e novos modelos, novos designs de aparelhos, e uma lenta e gradual redução de tamanho de aparelhos, além da mudança das redes analógicas para digitais. Entretanto, quando chegamos em 2004 a curva atinge um ponto de inflexão impressionante.  Com o mercado tornando-se mais maduro, os participantes de toda a cadeia de valor podem  atuar de forma mais independente, e lutam por seus espaços sem a necessidade de toda a interdependência  que fora fundamental nos dias embrionários. Assim, nos últimos 5 anos assistimos o surgimento da primeira câmera de 1 Megapixel em um telefone celular e sua rápida evolução para 2, e para 3, e 5 e 8 Megapixels, o crescimento da capacidade de memória interna dos incríveis 128MB até os 16GB, o rádio FM e sua evolução para tocadores de música e naturalmente tocadores de mídia, e o nascimento da “internet móvel” partindo de acesso a sites WAP até chegarmos aos atuais browsers que possibilitam experiência idêntica a de um computador. Isso para citar somente alguns exemplos. Se quiséssemos, ainda poderíamos falar da evolução dos jogos, do GPS, da TV móvel, etc. E até agora só falamos de características técnicas de produto. Se somarmos os serviços termos música, vídeo, e-mail, blogs, navegação com mapas e fotos de satélite, etc. A lista não acaba.

 Para completar meu exercício de olhar para trás, imagine que estamos em 2004 e corre a notícia que surgiu uma rede local sem-fio de dados em alta velocidade, a rede local wireless, ou o Wi-Fi, como preferir. O que isso significaria para a indústria de telefones celulares? Qual impacto nos produtos, serviços e no relacionamento entre fabricantes e operadoras de telefonia móvel? Difícil fazer uma estimativa precisa naqueles dias, mas lembro-me que em 2005 eu já participaria de um painel em uma feira da indústria para falar de aparelhos celulares com múltiplos sistemas de comunicação, envolvendo redes para áreas propositadamente muito restritas, como por exemplo leitores de etiquetas inteligentes, redes Bluetooth, redes locais sem fio, redes de telefonia móvel das operadoras, até redes de longuíssima distância combinando o uso de algumas destas redes, e tudo isso no mesmo telefone!

Todos os dias, eu e outros tantos profissionais deste mercado temos que tomar decisões baseadas nas nossas melhores idéias sobre o que o futuro nos reserva. Tentamos identificar o que é sinal e o que é ruído, quais as ameaças e quais as oportunidades de mercado.  E temos analistas e investidores aconselhando e negociando (ou não) as ações de nossas companhias.  Mas afinal, com esse histórico em mente, como saber o que vem pela frente? Quais os prováveis destinos de nossa caminhada? Qual o ponto de equilíbrio para tanta convergência de soluções em um único aparelho portátil e funcional? Qual o limite entre os “smartphones” e os “netbooks”? E mais, como deverá ser esse mercado em um futuro próximo? Quem particiará? Quem serão os concorrentes e os parceiros?


Se pretendo discutir e trazer algumas respostas para estas questões, a tarefa a que me proponho não será nada fácil, mas vamos explorar estes questionamentos e suas respectivas conseqüências nos próximos artigos.

 No entanto, corremos um grande risco: amanhã alguém poderá ter inventado algo que torne algumas das interrogações de hoje completamente obsoletas!

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