Lapa (Rio de Janeiro): o nascimento da criatividade
Rodrigo Cintra - Outubro 09
Existem diferentes teorias que
tratam dos processos que levam às inovações na perspectiva industrial. Diferem
em grande medida entre aquelas focadas nas inovações do processos produtivos daquelas
focadas na produção de produtos inovadores. Dentro destes limites, as
discussões sobre inovação se concentram nas condições que uma empresa deve
oferecer para que a criatividade aflore.
Ao olharmos a inovação como algo “produzido” pelas empresas, nos forçamos a olhar a relação entre a empresa e suas condições de trabalho e os trabalhadores e sua liberdade de empreendedorismo e criação. Tais condições variam de incentivos em forma de prêmios e bônus (para empresas mais tradicionais) a condições de trabalho abertas e mais horizontalizadas focadas menos na produtividade e mais na criação (para o caso de empresas ligadas à economia virtual, como o caso de várias empresas de sites).
Ainda que importantes, tais discussões não podem prescindir de outra discussão igualmente importante: o espaço de criação de pessoas criativas. A criatividade e a inovação podem ser mais ou menos estimuladas por empresas, porém o simples estímulo não é suficiente para alcançar a inovação. O bônus que uma empresa pode oferecer a seus funcionários nos casos de idéias inovadoras pode ser um importante estímulo, mas jamais poderá ser considerada condição única – e muito menos suficiente – para que a inovação efetivamente seja alcançada.
É também parte do problema a capacidade que uma empresa tem em atrair mão-de-obra potencializada em termos de produção criativa. Mas será que as empresas contarão apenas com a sorte para atrair este tipo de trabalhador? A resposta é não. Vários exemplos mundo afora nos ajudam a melhor compreender esta dinâmica. Cada espaço geográfico-identitário acaba por atrair um conjunto de pessoas que têm semelhanças. Caso este espaço consiga criar um conjunto de condições específicas, é esperado que nele habitem e circulem pessoas com perfis criativos, empreendedores e capazes de promover inovações.
Uma rápida análise sobre o Vale do Silício (Estados Unidos) nos mostra uma grande pujança na capacidade inovativa na área de informática. Já em Barcelona é possível encontrar uma dinâmica arquitetônica com capacidade de projeção em função de suas inovações.
No Brasil vários lugares apresentam condições semelhantes na capacidade de atração de um perfil de pessoa, que tem na criatividade um de seus pontos de distinção. O bairro da Lapa no Rio de Janeiro ou, em menor medida, a Vila Madalena em São Paulo, são hoje importantes espaços de reverberação cultural. Nestes lugares não há o predomínio claro de um estilo artístico que ali encontra espaço para um contínuo aprimoramento técnico. Ao contrário, parece que a mistura é mais importante do que a competência técnica.
Qual resultado de lá sairá? Impossível determinar no momento em que as ebulições, choques de tendências e padrões, e tentativa de criação de uma identidade própria estão em desenvolvimento. Mas já se sabe que se for para surgir algo efetivamente novo, capaz de romper com alguns parâmetros já sólidos e se mostrar inovador, deverá sair de lá. E de lá não sairão apenas formas culturais, mais do que isto, sairão novas dinâmicas culturais. Isso significa não só o surgimento de novos estilos musicais ou de qualquer outra arte, mas estilos de ser, de consumir, de se relacionar com o meio.
Esta dinâmica cultural é importante para pensarmos sobre o espaço no qual as empresas estão inseridas. Para atrair um trabalhador criativo, a empresa deve conseguir atrair uma pessoa que venha de ambientes com características muito semelhantes à Lapa do Rio de Janeiro. Isso quer dizer, lugares nos quais o múltiplo, o embate, a fusão, a superação de idéias seja o padrão.
No entanto, não podemos esquecer que tal dinâmica deve necessariamente ser acompanhada por dinâmicas de promoção do conhecimento técnico. A criatividade não gera inovação sem técnica, gera idéias. A técnica não gera inovação sem criatividade, gera aprimoramento. Encontrar tudo isso junto é o grande segredo.
Rodrigo Cintra
