Avanços tecnológicos na cadeia de carne bovina brasileira
Por muitas décadas, a cadeia de carne bovina foi taxada de refratária, impermeável às inovações e falava-se que a mentalidade patrimonialista dos seus produtores era fundamental na determinação da competitividade deste setor. No entanto, nos últimos anos, a cadeia de carne bovina brasileira tem observado um avanço espetacular, que propiciou uma evolução significativa nos principais indicadores de carne bovina do Brasil.
Com efeito, devem-se buscar as razões pelas quais o Brasil tem se tornado cada vez mais competitivo em termos de produção de carne bovina no mundo. Cumpre lembrar que os últimos anos foram marcados pela conjuntura ruim de preços, o que trouxe uma baixa remuneração para o produtor de gado de corte. Segundo o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, “A sobrevivência dos produtores tem sido oportunizada pelo salto tecnológico. Há dez anos, um boi ia para o frigorífico com quatro anos de idade, pesando 22/23 arrobas. Hoje com 18 meses já está em ponto de corte, com 15/16 arrobas. Com isso tem sido possível extrair muito mais carne por hectare. A divisão, a rotação e o manejo de pastagens, sua adubação (em alguns casos até irrigação) e o uso de novas forrageiras mais nutritivas se somam a um espetacular melhoramento genético de nosso rebanho (...)” .
De fato, hoje o pecuarista brasileiro tem à disposição alta tecnologia, representada por ótimos reprodutores, matrizes e bezerros, além de genética com qualidade comparável às melhores do mundo. Não obstante, a conseqüência tem sido melhores indicadores de produtividade devido à gradativa queda na idade de abate dos bovinos no país. Podem-se listar algumas iniciativas que propiciaram o salto de produtividade da pecuária de corte brasileira, quais sejam:
1) O Programa do Novilho Precoce. Este programa tem como incentivo estimular o criador a antecipar a idade de abate de seu rebanho para melhorar a produtividade, vale dizer, a taxa de desfrute. O novilho precoce permite oferecer ao mercado carnes de excelente sabor e valor nutritivo e com baixo teor de gordura, em comparação com o produto que é vendido aos açougues;
2) Os cruzamentos industriais. Os cruzamentos industriais têm sido uma maneira de melhorar a qualidade genética do rebanho na busca de melhorias no ganho de peso, maior rendimento da carcaça e precocidade de abate. Todos esses aspectos citados de alguma forma afetam a qualidade da carne bovina produzida. A carne oriunda dos cruzamentos, como já foi dito, é mais saborosa, o que é um grande fator positivo;
3) A engorda intensiva. A engorda intensiva busca obter ganhos de quantidade e de qualidade. Uma das finalidades da engorda intensiva é reduzir a idade do abate. Dos sistemas de produção pecuários, principalmente o confinamento e o semiconfinamento são aqueles com maior potencial para reduzir a idade de abate dos animais. Adicionem-se à engorda intensiva as tecnologias de manejo e suplementação a pasto, que têm evoluído muito nos últimos anos, tornando possível a obtenção de produtividades satisfatórias sob baixos custos de produção.
As conseqüências do uso de tecnologias por parte dos pecuaristas brasileiros são apresentadas pelos dados do Gráfico 1 e da Tabela 1. O Gráfico 1 apresenta o vertiginoso aumento da produção e das exportações de carne bovina do Brasil entre 1994 e 2006. A produção subiu de pouco mais de cinco para cerca de nove milhões de toneladas equivalente-carcaça.

O avanço nos anos recentes (2004 a 2007) é conformado pela Tabela 2, onde o Brasil ganha uma fatia maior na participação do mercado mundial de produção de carne bovina, colocando-se atrás apenas dos Estados Unidos.

Um “olhar” adicional a respeito do destino da carne produzida mostra a importância das exportações nos últimos anos. Estas cresceram cerca de 480%, saltando de menos de 400 mil para 2,2 milhões de toneladas equivalente-carcaça. Aqui se reforça o argumento do aumento do uso de tecnologias. A maior parte da carne produzida, cerca de 75%, destina-se basicamente ao mercado interno, menos exigente e pouco atento à qualidade, e à exportação. Ao contrário da indústria voltada para o abastecimento interno, a voltada para o mercado externo possui elevado nível tecnológico. Aqui vale lembrar a importância das exigências do mercado internacional. Tais exigências provocam, freqüentemente, adaptações que começam na pesquisa genética e envolvem toda a cadeia produtiva. De acordo com o autor, a atividade de exportação coloca para a empresa o desafio de satisfazer o consumidor em escala mundial. Para atendê-lo com êxito, a empresa é forçada a estabelecer mecanismos de coordenação sistêmica ao longo da cadeia produtiva.
O Gráfico 1 parece apontar uma mudança estrutural mostrando que as exportações passaram de algo em torno de 5% para cerca de 25% da destinação da carne bovina brasileira. Tal mudança reflete o aumento das práticas mais intensivas e do uso de tecnologias dos produtores brasileiros, visando crescentemente ao atendimento do mercado externo.

A Tabela 2 evidencia o aumento da participação do Brasil na exportação da carne bovina em termos mundiais, onde há alguns anos o país ocupa a liderança.

Por se tratar aparentemente de uma mudança estrutural, é possível que tal cenário solidifique o Brasil como principal ator no mercado mundial nos próximos anos. Para tanto, é necessária a continuidade dos investimentos em tecnologias que visem à redução da idade do abate dos animais, com o melhoramento genético do rebanho, tendo como conseqüência a melhora dos indicadores de produtividade da pecuária de corte brasileira. Como ainda grande parte da carne bovina brasileira é destinada ao consumo doméstico (75%), ainda há um enorme espaço para o avanço do setor nos próximos anos.
(1) RODRIGUES, R. Pecuária de corte tecnologia e gestão. São Paulo. Folha de São Paulo, Dinheiro, p. B2, 18/08/2007.
