Sexta Set 10

Sobre crises e inovação

O momento atual é de vertigem e espanto. As mudanças são rápidas, os caminhos são incertos e as conseqüências imprevisíveis. Pontos de inflexão, como a presente crise, sempre chamam à reflexão sobre o sistema econômico como um todo. E é natural que esta reflexão se dê sob a sombra do nosso próprio passado - somos animais de mente evolutiva, o que significa que a história importa.

Há cerca de setenta anos, o mundo enfrentou uma crise sob muitos aspectos semelhante à atual. O papel dos agentes econômicos no núcleo central desta crise, bem como das subseqüentes - inclusive a atual -, sempre é ressaltado. A ganância, a falta de moral e a incapacidade de lidar com o risco são apontados como os piores defeitos dos agentes - e a grande barreira para a condição estável e equilibrada que deveria ser o estado natural da economia.

O nome de John Maynard Keynes firmou-se como o de grande economista do Século XX, em boa parte em conseqüência de sua atuação no pós-crise dos 1930. E na crise atual, a memória dos mercados traz de volta com força o pensamento de Keynes para o centro do entendimento das forças instáveis que moldam o pânico que se vê.

Mas enquanto Keynes formulava sua teoria econômica, um outro economista já tinha elaborado uma explicação para o funcionamento do capitalismo sob bases completamente distintas. Joseph Alois Schumpeter começou a formular no começo da segunda década do Século XX sua análise do capitalismo.

A diferença central entre o pensamento de Keynes e de Schumpeter se dá exatamente na compreensão da estabilidade do regime, e do papel que a inovação cumpre no capitalismo. Keynes, assim como o pensamento econômico ortodoxo, vê o sistema econômico como um sistema de equilíbrio, em que crises e situações de instabilidade são exceções a serem corrigidas. E sob esta base Keynes construiu sua explicação e sua crítica ao funcionamento dos mercados.

Schumpeter, por outro lado, via a mudança como fundamento do modus operandi da economia, tendo o processo de concorrência como essência do permanente desequilíbrio capitalista. Cada empreendedor compete com os outros, em busca da consecução dos lucros extraordinários resultantes do prêmio máximo resultante do monopólio temporário associado à criação de um novo mercado.

Desta forma, enquanto Keynes via a crise como um desvio da trajetória natural do capitalismo, como um resultado nefasto da (falta de) qualidade dos agentes econômicos, Schumpeter compreendeu que o regime é por si instável, tendo a mudança como regra. Mais do que isto, esta natureza dinâmica é a própria essência virtuosa do capitalismo - e é aí que reside o cerne de sua robustez, de sua capacidade resiliente inata.

O mais importante na visão de Schumpeter desta dinâmica naturalmente instável do capitalismo é justamente o mecanismo central da dinâmica evolutiva do sistema - e o elemento central fomentador do crescimento econômico - que é a inovação.

Para Schumpeter o processo concorrencial estimula continuamente os empreendedores a buscar novas combinações, novos produtos e a melhoria dos processos. Mas o momento mais importante se dá não na inovação rotineira, com pequenas melhorias, mas nas inovações radicais, que efetivamente criam novos mercados, acompanhados de uma demanda que antes não existia - a as crises, com a destruição que trazem, são o outro lado da mesma moeda.

A dinâmica fundamental do capitalismo tem uma natureza de, continuamente, destruir o velho e substituí-lo pelo novo - e a inovação radical é o ator central deste drama. Schumpeter cunhou o termo “Destruição Criadora” para descrever este processo. O novo não pode ser atingido pela melhoria sucessiva do velho - é preciso destruí-lo. E das ruínas surgem mercados novos, maiores e mais prósperos.

A história está repleta de casos como este. Dos automóveis aos computadores, da energia elétrica ao iPod, a introdução de inovações criou novos mercados, mudou a topografia da economia, transformou indústrias e permitiu ao capitalismo recriar-se de dentro para fora, cada vez mais amplo e dinâmico.

Keynes, preso em sua visão estática do sistema econômico, assume uma postura pessimista e subestima a capacidade criadora do capitalismo - representada pela inovação - com sua conseqüente capacidade de criar novos espaços econômicos, criando assim demanda extraordinária.

Crises são da natureza do capitalismo. Desta forma é importante lembrar que elas não representam o fim do sistema, apenas um processo de ajuste. Mas é mais importante ainda lembra que as crises, em seu processo profundamente transformador, embutem as grandes oportunidades. A inovação é o motor desta mudança. Àquele que souber inovar e se aproveitar do que ainda reina incerto aos outros os lucros extraordinários estão à espera.

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Denis L. Balaguer

Nota: Agradeço ao Prof. Sérgio Queiroz pelos debates que fomentaram alguns do argumentos apresentados neste artigo.

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